segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014


sexta-feira, 22 de março de 2013

Já chupou limão?

Como pode uma sutileza ser tão sutil quanto a de Djavan na canção Limão? No Brasil, a poesia entra fortemente muito mais via música popular que por livros de poemas propriamente ditos. (Aliás, um ótimo documentário para perceber esta situação é o Palavra Encantada). Pois bem, Limão é um grande poema feito pelo grande poeta Djavan, um dos alagoanos mais ilustres do mundo.

O véu luminoso do sol na bruma, cobre a serra molhada, por um buraco da névoa, vara a espada de luz, libertando a terra ao tocá-la. Imagino um quadro. Ou uma cena de filme. E logo em seguida vem a alegria e o encantamento de existir. Pareço uma criança descobrindo o mundo: a chuva parou, o dia renasce para o passeio, para o amor, para o trabalho. Pena que o capitalismo, nessas bandas de cá, não deixa a gente fruir o mundo como quem saboreia uma maçã e beija a boca do amado. Mas, sim, imagino a cena, e ela é muito gostosa. E as palavras são invenções; saboreio as invenções.

Versos de quem sente a vida por todos os poros: a princípio o cheiro é a primeira coisa a lembrar, o chão enxugando, aquecendo, as poças diminuindo, o povo, os animais, o vai-e-vem. É uma cidade, de preferência pequena - não consigo imaginar certas sutilezas nas nossas metrópoles. Penso em Garanhuns, Arcoverde, Delmiro Gouveia, Santana do Ipanema, Murici - esta última citada na também djavaneana Quase perdida.

Sabe aqueles pequenos prazeres que só você conhece? Cheiro de limão me encanta. Quantas coisas encantam nossa vida? Será que nas Fernandes Limas e nos desempregos e ônibus lotados conseguimos sentir como é gostoso viver? É um grande desafio. Mas, sim, vamos destruir as empresas de ônibus! As perguntas são mais encantadores que as respostas. Bem sabem disso a filosofia, a psicanálise e o jornalismo. Como se sente o fruto do limoeiro? Nossa! Essa pergunta é arrebatadora por demais! A virgindade verde se abre em gotas, para encenar o sabor, no teatro da boca, onde o áspero se fere, ao ranger dos dentes. É disso que eu falo. Essa capacidade de juntar palavras e sentidos de uma maneira tão bonita que fica até difícil de descrever a sensação. Mas sentir já é tudo.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Não se nasce artista

Não se nasce artista. A vida foi sendo construída. Desde antes de nascer não me lembro de quem eu era. Nasci. Brinquei no meio da rua. Sofri. Vida que vai passando. Sons e outras alegrias. Sons e outras tristezas. Ser artista é nascer de novo. É perceber o mundo todo como um brinquedo de viver. É sofrer com a não vida, com o não comer, com o não trabalhar, com o não morar. Acordar e ouvir um Zé, um Wado, um Skylab.

O quanto de liberdade vão negar ao artista? Não, não, não! Não deram fim à censura em 85. Democracia é a ditadura da maioria: burra, irreflexiva, passiva, murcha. Televisão para alimentar os cansados. Para fazer companhia na rodoviária, no consultório, no bar. Tanto álcool. Tanta gente. Sede de tudo e de nada. Lixo, muito lixo. Márcia Tiburi, minha amiga, me ajude!

Ditadura econômica, ditadura de verbo, ditadura de beleza, ditadura de tecnologia. Não conseguimos viver sem ditadura. A liberdade é o nosso maior medo. E o que perseguimos? Esperança, felicidade, juventude eterna? Tudo o que não existe. O que existe é ilusão. Quero dançar com a solidão ouvindo um Zeca Baleiro dos bons!

Afinal de contas, o que é ser artista?



quarta-feira, 9 de maio de 2012

Vem Sambar na Rosa!


Após hiato de um ano, o Quarteto Malacada volta a se apresentar no Bar e Espaço Cultural La Rosa, no coração do bairro histórico de Jaraguá. Com um repertório repleto de pérolas do nosso samba e choro, além de músicas próprias, o Malacada convida para apreciar uma boa música, tomar aquela cervejinha e... sambar!

Não perca! Vem Sambar na Rosa!

Quatro Cordas Produções Artísticas
(82) 8833-9785

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Aulas de Cavaquinho


domingo, 14 de agosto de 2011

Vagabundo, eu?


Existem muitos estereótipos que, por vezes, atrapalham a vida de um músico popular. Um deles se trata da noção de que "músico é vagabundo". Trata-se de um preconceito, e, como tal, advém de um profundo desconhecimento da profissão musical. A manutenção da ideia da vagabundagem como elemento inerente ao músico ou à musicista se dá por inúmeros fatores.



Em geral, os músicos que se apresentam ao vivo geralmente o fazem em momentos em que o público está em seu momento de lazer. Daí, ao ver corpos de músicos se requebrando e sorrisos abertos, muitas pessoas tem a falsa ideia de que os músicos estão se divertindo. Aliás, eles podem também estar se divertindo, mas ao momento da apresentação precedem inúmeras horas de estudo, ensaio, negociações, burocracias, divulgação... E, como muitos músicos ingerem bebiba alcoolica enquanto estão tocando, aí é que se tem a impressão de que aquilo ali é puro lazer, esforço nenhum, diversão.


Mesmo quando alguém encara a música como um passatempo, o que, aliás, é muito interessante, ainda assim não se tem muita noção do que é ser profissional. Um dia desses, por exemplo, recebi um telefonema de um músico amador, que, ao me ver num canal de televisão, me parabenizou e desejou sorte para mim, "tanto no trabalho, como na música". Percebemos nessa fala a ideia de que música não é trabalho; trabalho é coisa séria, dá dinheiro, tem horário definido de expediente. Música não, música é lazer, entretenimento, brincadeira, bebedeira, farra.


A música como elemento de diversão e hobby traz muitos benefícios na vida de quem quer aprender a tocar um instrumento para tocar numa rodinha de amigos, por exemplo. Mas, ser músico profissional é outra história. Quem já é profissional ou tem interesse de se profissionalizar precisa ter consciência de sua importância, de seu trabalho, saber cumprir horários, estudar e ensaiar muito, frequentar workshops, se privar de muitas coisas, estar disposto a repetir a mesma música trocentas vezes, treinar o ouvido, usar o metrônomo. O metrônomo, o bendito metrônomo!

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Oração ao tempo

Djavan, após o excelente "Matizes", de 2007, nos brinda agora em 2010 com o seu elegante "Ária". É o primeiro álbum de intérprete de Djavan. Acredito na dificuldade da gestação deste álbum, uma vez que Djavan ainda tem muitas canções próprias a serem gravadas. O homem não pára de compor!

Pois bem. Deste "Ária", quero destacar a canção "Oração ao tempo", de Caetano Veloso. A música não é "oração" apenas no título! São dez estrofes de igual melodia, rezadas mesmo! A repetição é proposital, pois, por exemplo, repetitivas são as orações católicas (vide o terço). A palavra "tempo" é repetida à exaustão, como se quem reza estivesse tentando chamar a todo custo a atenção do deus tempo. É a pequenez humana frente ao tempo.

Neste arranjo da canção ora gravada pelo alagoano Djavan, perçeba os tambores e chocalhos que lembram índios suplicando por chuva, ou por qualquer outra coisa. Pode ser até que estejam rezando para fazer as pazes com o tempo.



Oração ao tempo
(Caetano Veloso)


És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo...
Compositor de destinos
Tambor de todos os rítmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo...
Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo tempo tempo tempo...
Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo tempo tempo tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo tempo tempo tempo...
Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo tempo tempo tempo
Quando o tempo for propício
Tempo tempo tempo tempo...
De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo tempo tempo tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo tempo tempo tempo...
O que usaremos prá isso
Fica guardado em sigilo
Tempo tempo tempo tempo
Apenas contigo e comigo
Tempo tempo tempo tempo...
E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido
Tempo tempo tempo tempo...
Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo...
Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo tempo tempo tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo tempo tempo tempo...