sexta-feira, 26 de outubro de 2007

UNIVERSO ESTÉTICO DE UNIVERSO AO MEU REDOR


A análise de um produto midiático é uma tarefa a qual me proponho agora realizar aqui em algumas páginas. A escolha do produto a ser investigado não foi um caminho fácil e curto. De pronto pensei num programa pornográfico veiculado em televisão fechada e internet. Consegui a senha do programa numa comunidade do orkut e assisti a alguns vídeos a fim de ter base para minha análise. Com o tempo percebi que talvez não me sentisse tão à vontade para versar sobre a temática do programa.



Acreditando que se escolhesse algo em que houvesse paixão, tentando unir a máxima do útil ao agradável, conseguiria ser mais feliz nas considerações sobre o produto. A mudança desta vez foi para o DVD de um ídolo, o músico carioca Jorge Aragão. Mas ainda houve tempo para mais uma modificação, sendo desta vez escolhido como produto midiático a ser analisado um dos CD’s lançados por Marisa Monte em 2006, Universo ao meu redor. A troca do DVD pelo CD se deu pelo fato de este último aparentemente possuir mais elementos para ser analisado, como por exemplo o encarte, que no DVD de Jorge Aragão é substituído, por assim dizer, por um simples folheto contendo propaganda de outros DVD’s.

Com a escolha definida, resta enfim dar início à análise, frisando que esta não será uma crítica musical como costumamos ler nas revistas e jornais especializados. O leitor deverá atentar para três questões fundamentais que serão aqui levadas em consideração: quais as linguagens e de que maneira estas são utilizadas; perceber se existe diálogo entre o CD de Marisa Monte e outras formas artísticas; e finalmente versar sobre o conteúdo explícito do produto, verificando as mensagens que Universo ao meu redor sustenta.

Iniciemos então analisando as linguagens utilizadas no CD. E nisso verificamos logo de pronto que o material possui as linguagens sonora, verbal e visual. A linguagem visual é característica marcante do CD. A capa lembra uma flor, que se destaca no meio do que parecem ser pacotes de cordas para instrumentos musicais. As cores são vivas, vibrantes. Na parte traseira da embalagem encontramos listras com tons de rosa e marrom. É aí também que se mistura, explicitamente, a linguagem verbal: um texto, escrito pela própria Marisa Monte, contando a história do CD. Percebemos aí a vontade da artista de se comunicar, vontade que não seria satisfeita se apenas o nome das músicas fossem encontradas no local “tradicional”.

Dentro do encarte do CD ainda encontramos mais exemplos de comunicação pela linguagem visual. Além de as páginas do libreto serem de diversas cores, encontramos na parte final uma belíssima obra de arte, uma criação com cores marcantes e sem forma definida. Algo que nos enche os olhos e nos faz pensar. Coisas de uma artista que gosta de ser livre e felizmente recebeu da indústria e da mídia uma boa dose de liberdade para realizar seus intentos.
A linguagem verbal também está presente nas letras das músicas. E aqui abro um parêntese, arriscando-me para dizer que em música a linguagem verbal só não está presente na música instrumental, ou aparece em menor escala. No CD de Marisa Monte a linguagem verbal é explorada também na forma de cifras. Todas as letras do encarte possuem notas musicais, o que torna o conteúdo do CD mais numeroso. Quem for aprendiz ou profissional de instrumentos musicais já tem um atrativo a mais para comprar o CD.

Por falar em compra de CD, é importante que se comente sobre o lançamento de Universo ao meu redor. Marisa Monte ousou e, em meio à crise por que passa a indústria fonográfica mundial, lançou simultaneamente dois CD’s: Infinito Particular e este aqui analisado Universo ao meu redor. O curioso é que eles vieram com uma certa configuração que não permite que se passe as músicas para iPod, e na época do lançamento não se conseguia fazer cópias dos CD’s (obstáculos que os produtores da “pirataria” já devem ter se desviado). Passada a polêmica inicial, é necessário atentar para o fato de que mesmo que se consiga fazer cópias e mais cópias das músicas de Universo ao meu redor, este CD é uma obra de arte única e vale o esforço para ter este produto em casa como fonte de referência. Basta lembrar que Marisa Monte leva um certo tempo para lançar músicas inéditas. Além disto, o CD tem atrativos que ainda não havia percebido em outros, como é o caso de um player próprio que roda suas músicas no windows.
Quando colocamos o CD na bandeja do computador, em poucos instantes um programa é aberto. Mas não é o Windows Media Player ou o Real Player, e sim um tocador próprio, com pano de fundo, opções para interagir com as músicas e extras, com ajuda e um link para o site de Marisa Monte.

Voltando às linguagens utilizadas no CD de Marisa Monte, verificamos claramente a presença da linguagem sonora, o que chega até a ser uma obviedade, uma vez que estamos falando de música. E os sons são utilizados da forma como uma artista madura como Marisa Monte consegue conceber. Instrumentos tradicionais somados a outros objetos como ukulele (tocado pela própria Marisa Monte), fender rhodes e farfisa;mini moog, tiger e kalimba (outra vez executado pela artista).

A linguagem sonora certamente é a que mais deve ter sido motivo de elaboração e preocupação estética, e felizmente temos um resultado que, se não chega a surpreender pela variação de ritmo (afinal o CD é composto unicamente por sambas), traz melodias suaves, serenas, tranqüilas, além de harmonias belíssimas, difíceis às vezes, que se encaixam perfeitamente com a voz doce e profissional de Marisa Monte.

Agora urge descobrir se o produto midiático aqui verificado possui diálogos com outras formas artísticas. E de pronto vem à mente a imagem da capa do CD e da última página do libreto. Esta dialoga claramente com a pintura: são cores jogadas com sua lógica própria, sem aparentemente ter forma de nada que conhecemos no mundo material. Esta obra de arte faz rapidamente surgir a lembrança das vanguardas européias do século XX.

Já a capa do CD é uma mistura de colagem com ares psicodélicos. O mais importante é perceber que uma manifestação de arte sempre, necessariamente, estará dialogando com formas estéticas anteriores, em maior em menor escala, direta ou indiretamente. O CD traz dentro de si o disco de vinil, a fita K7, a fotografia e no caso de Universo ao meu redor, a pintura.

Se a intenção for se concentrar unicamente no conteúdo musical do CD, ainda teremos material vasto a ser visto e interpretado.

Temos letras no mínimo interessantes em Universo ao meu redor, dentre as quais Satisfeito: Quem foi que disse, que é impossível ser feliz sozinho / Vivo tranqüilo, a liberdade é quem me faz carinho. Aí percebemos um diálogo inclusive com um trecho clássico da música popular brasileira, que diz que É impossível ser feliz sozinho.

A faixa que dá nome ao CD traz a temática da natureza e da solidão: Graças a Deus, um passarinho / Vem me acompanhar / cantando bem baixinho / E eu já não me sinto só / Tão só, tão só / Com o universo ao meu redor.

Alegria, amor e felicidade estão presentes em Lágrimas e tormentos, de Argemiro Patrocínio: E hoje a minha vida é um carrossel de alegrias / E como se não bastasse, estou amando de verdade / Me perdoa se eu me excedo em minha euforia / Mas é que agora sei o que é felicidade.

Há uma música, composta por Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Cézar Mendes, cuja letra perpassa sobre a dificuldade de expressão de sentimentos: Procuro explicar o meu sentimento / E só consigo encontrar / Palavras que não existem no dicionário / Você podia entender meu vocabulário / Decifrar meus sinais, seria bom.

Enfim, as mensagens que o CD de Marisa Monte faz ecoar são: dance, ouça a boa música brasileira, valorize o samba, ame, sinta-se bem, aproveite a simplicidade da melodia e das letras...

Marisa Monte foi felicíssima na sua captação de Universo ao meu redor, obra de arte que traz inúmeras facetas estéticas aparentes e implícitas. Estéticas que começaram desde a intenção inicial de conceber o CD, passando por questões como a própria materialidade do CD em si, distribuição, execução e o sentimento do ouvinte das canções.

As poucas linhas escritas pela própria Marisa Monte na parte traseira da embalagem de Universo ao meu redor conseguem ilustrar intenções estéticas:

"Eu sabia, através do meu contato com o samba carioca e, principalmente, pelo convívio com a Velha Guarda da Portela e pelo trabalho de pesquisa para o disco deles em 99, que havia um repertório incrível, presente apenas na tradição oral, que estava se perdendo pouco a pouco. A curiosidade me fez querer saber mais sobre isso, ampliando o conhecimento para além dos limites da Portela. Comecei a fazer uma série de encontros e entrevistas, orientada por conversas com Monarco, Paulinho da Viola, D. Yvonne Lara e meu pai, entre outros.
Ouvi compositores, parentes e parceiros de sambistas antigos em busca não somente da obra deles, como também das referências criativas; da gênese do samba feito por eles.
E os sambas de Jayme Silva, Argemiro, Dona Yvonne, Casemiro, Moraes e Galvão, alguns com mais de cinqüenta anos, uniram-se à produção contemporânea da Adriana, do Paulinho, do Arnaldo, do Carlinhos e minha, no repertório de Universo ao meu redor, esse meu disco focado mais do que no samba, eu diria, na atmosfera do samba, com seus assuntos mais freqüentes – o amor, a natureza, a própria música, a condição humana, o canto dos passarinhos, o quintal, o convívio através da arte..."