sábado, 13 de dezembro de 2008

EM MI MENOR

Eu sou alguém revoltado com a realidade social à nossa volta. Não sou militante político ativo, por vontade de me dedicar sempre à música, que exige muito de um ser humano. Mas não sou um alienado que só enxerga claves de sol em sua frente.

Desde cedo tenho uma revolta com os decasos, os demandos e os desserviços de particulares e entes públicos. Morando em Maceió, neste Estado de Alagoas, tão rico por um lado, tão pobre por outro, aumenta cada vez mais a minha indignação frente às mazelas de nossa sociedade.

A revolta atinge o meu espírito criativo e eu crio uma música cuja letra transcrevo a seguir:

Em mi menor
Posso fazer uma canção
Em mi menor
Expurgarei do coração
E farei minha catarse

Pra dizer da revolta por que passo dia-a-dia
De perceber que ano passa, ano vem e a burguesia não consegue resolver
Ou talvez o seu Estado não queira saber

"Eu não tô nem aí,
Não ando por aí
Meu filho nunca foi aí"

O Trio Malacada está ensaiando esta música e espero mostrar a quem se interessar em breve. Abraço a todos.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

100 ANOS DE CARTOLA

Já se passaram alguns anos desde o dia em que pela primeira vez lembro ter ouvido alguma coisa de Cartola. Não foram acordes vindos de um cavaquinho ou o arranjo de um trombone que eu ouvi neste dia. Foram as palavras do meu Tio Deildo, que, com Tio Bento, nas farras em feriados com a família reunida, iniciaram-me no mundo da música, mesmo sem necessariamente querer. As farras musicais sempre foram presentes. Eram eles tocando, bebendo e cantando, e eu brincando de esconde-esconde com meus primos.

E num dia de reunião como as costumeiras, lembro que Tio Deildo conversava com meu primo Cláudio sobre compositores. Eu ainda não era iniciado nesse negócio de MPB não. Assim, sempre gostei de música brasileira, mas MPB e samba para mim eram coisas dos mais velhos. Nesta época andava às voltas com meu cavaquinho, suando para aprender os acordes e as batidas das músicas dos grupos de pagode. É, gostava mesmo é de um Karametade, Desejos, Katinguelê e, meu preferido, Soweto!

Pois é... mas meu tio conversava com meu primo sobre canções e disse com admiração: “Partindo para o lado romântico, lírico da música, não existe composição mais magistral do que As rosas não falam, de Cartola: Queixo-me às rosas, que bobagem / As rosas não falam / Simplesmente as rosas exalam / O perfume que roubam de ti. E depois de citar estes versos, Tio Deildo balançava as mãos e expressava gestualmente a empolgação de estar citando palavras tão belas compostas por um homem que conseguiu apenas terminar o primário.

Lembro de outro dia em que o mesmo Tio Deildo me apresentou Cordas de Aço, que é uma conversa lamuriosa entre Cartola e o seu violão. Ai, essas cordas de aço / Este minúsculo braço / Do violão que os dedos meus acariciam / Ai, esse bojo perfeito / Que trago junto ao meu peito / Só você, violão, compreende porque / Perdi toda alegria; ouvi didaticamente estes versos, com meu tio apontando para o violão, como que explicando a canção.

Agora me recordo de um CD que comprei numa data comemorativa para um amor de tempos idos. Era Beth Carvalho Canta Cartola. E numa das conversas do fim do namoro, a moça me disse: “Será que eu fiquei fria, como na música?”. Ela se referia a Acontece: Esquece nosso amor, vê se esquece / Porque tudo no mundo acontece / E acontece que já não sei mais amar / Vai chorar, vai sofrer / E você não merece / Mas isso acontece / Acontece que meu coração ficou frio / E nosso ninho de amor está vazio / Se eu ainda pudesse fingir que te amo / Ai, se eu pudesse / Mas não quero, não devo fazê-lo / Isso não acontece.

E agora, passados alguns anos desde meu contato inicial com o universo cartolesco, comemoramos os 100 anos de Agenor de Oliveira, o Cartola. E se a Radiobrás dedicasse uma semana de homenagens ao nosso querido Cartola? Por uma semana, no horário d’A Voz do Brasil, ouviríamos letras poéticas e belas melodias, ao invés da briga eterna “governo versus oposição”. Ou então, melhor ainda: que se baixasse uma medida provisória obrigando as rádios a veicularem, durante um dia inteiro, em todas as cidades do Brasil, uma programação exclusivamente dedicada a Cartola. Seria uma homenagem ousada e merecida. Além do mais, seria um dia inteirinho, eu disse 24 horas ininterruptas, sem Calcinha Preta e Calypso!

Brincadeiras à parte, o fato é que Cartola foi sagaz em perceber agruras e alegrias da alma humana, entrando para a história da música brasileira como expoente. E eu, com meus vinte e poucos anos, sigo levando seu nome adiante, ainda mais agora, cada vez mais conhecedor da obra do mestre, acompanhado de meu cavaquinho, chorando melodiosamente As rosas não falam.

É Cartola. De fato as rosas não falam, mas se falassem estariam reclamando para si perfume próprio, negando que são ladras do aroma de tua amada. E aí encontrarias outra forma de engrandecer o poder de tua musa, tomando emprestado quiçá a luz de uma estrela ou o dulçor das águas de um rio. Mas te expressarias. Magistralmente!

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Link para matéria sobre o MALACADA no portal SURURU DE CAPOTE:
http://www.revistasururudecapote.com.br/home/content/view/274/4/

Só lembrando que o horário é: todas as sextas, a partir das 17:30h., e não 17h, como está na matéria acima.

domingo, 21 de setembro de 2008

MALACADA NO MANDALA CAFÉ

Todas as sextas-feiras, no Mandala Café, Samba e Chorinho com o Grupo MALACADA, a partir das 17:30h.

Formado por Gustavo Bezerra (violão e voz), Ivo Farias (percussão e voz) e Salomão Miranda (cavaco, banjo e voz), o Grupo MALACADA traz no repertório músicas de Moraes Moreira, Waldir Azevedo, Toquinho, Jorge Aragão, Cartola, Demônios da Garoa e Noel Rosa, dentre outros grandes nomes do cancioneiro popular brasileiro, além de músicas autorais.

Gustavo Bezerra, estudante de História, músico boêmio, detalhista na colocação dos acordes em seu violão e apreciador dos sambas poéticos.

Ivo Farias é historiador, ex-integrante do Grupo Cumbuca, tendo tocado em diversas cidades e festivais, como o Festival de Música do SESC e Feira da Música – Fortaleza/CE. Atualmente também faz parte do Grupo Chamaluz.

Salomão Miranda estuda jornalismo e integrou o Grupo Samba Sim, que se apresentou na II Mostra de Artes de Comunicação Social da Ufal. Fez parte também do Grupo Acorda Mosca, apresentando-se em bares e restaurantes da cidade de Garanhuns/PE.

SERVIÇO:
Samba e Choro com o Grupo MALACADA, no Mandala Café, todas as sextas-feiras, a partir das 17:30h. Couvert artístico: R$ 3,00.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

ENTREVISTA COM WADO

Foto: Maira Villela

Em 19 de março do corrente, Wado concedeu entrevista coletiva a estudantes de comunicação da UFAL. Pedi autorização do artista para utilizar o áudio da entrevista num programa de rádio que eu precisava para obtenção de nota. Wado autorizou e o programa está aí. Espero que gostem!


terça-feira, 2 de setembro de 2008

MALACADA

Pessoal, está nascendo o grupo MALACADA. No repertório estão clássicos da MPB, bem como músicas de minha autoria.

O repertório contém doses de Toquinho, Martinho da Vila, Caetano Veloso, Cartola, Jorge Aragão, Waldir Azevedo, Moraes Moreira, Demônios da Garoa, Noel Rosa, Tom Jobim e outros nomes do cancioneiro popular brasileiro.

MALACADA é formado por Gustavo Rolo (violão e voz), Ivo Farias (percussão e voz) e Salomão Miranda (cavaco e voz). O grupo pretende agregar outros componentes aos poucos.

Ivo Farias é ex-integrante do Grupo Cumbuca, tendo tocado em diversas cidades e festivais, como o FEMUSESC.

Eu, Salomão Miranda, integrei o grupo Samba Sim, com as estudantes de jornalismo Cynthia Ferreira e Ábia Marpin (ex SANTA DICA). Com o SAMBA SIM tive minha primeira experiência com gravação de músicas e tocamos na II Mostra de Artes de Comunicação Social da UFAL. Integrei também o Grupo ACORDA MOSCA, com meus amigos de Garanhuns, Rafael Luna e Marlos Henrique. Com o ACORDA MOSCA tive a feliz experiência de receber meu primeiro Cachét, tocando na calourada do curso de Agronomia da UFRPE, no Restaurante Terraço. É possível assistir no meu orkut a dois vídeos de uma apresentação do ACORDA MOSCA no Restaurante Maria Bonita.

Gustavo Rolo, estudante de história da UFAL, é um músico exigente, detalhista na colocação do acordes em seu violão, e com quem troco muitas experiências e lições musicais.

É isso. Já estamos ensaiando há alguns meses e chegou a hora de mostrarmos um pouco do que aprendemos nesses poucos anos de vida. Estamos contatando restaurantes e bares na cidade para iniciarmos as atividades, e, desde já, se alguém estiver interessado pode deixar um comentário aqui no blog com o contato.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

A MÚSICA E O NADA

As duas músicas abaixo, uma dos Tribalistas e outra de Zeca Baleiro, mostram o que se tem chamado de pós-modernismo. Não temos clareza a respeito do pós-modernismo, uma vez que muito se ouve falar deste tema na universidade mas há pouco estudo sistemático.

Entretanto, para analisarmos as letras das músicas em questão, é preciso saber que este que escreve entende a pós-modernidade como uma época em que as pessoas estão esgotadas de teorias para ter um mundo mais justo, passando a viver interessadas unicamente em seu próprio bem-estar, alheias aos idealismos.

Na pós-modernidade o egoísmo impera, as pessoas vivem num "salve-se quem puder", e então estas tendências estão expostas nas letras aqui analisadas. Baleiro diz: "minha tribo sou eu"; Tribalistas dizem: "não tem que fazer nada basta ser o que se é". Os Tribalistas também fazem um jogo de palavras sugerindo o "nada": "Chegou o tribalismo, mão no teto e chão no pé"; este "nada", este "non-sense", parece ser característica da pós-modernidade. É o esgotamento do dizer. "Não há mais nada para ser dito", dizem os pós-modernistas ao estilo "Bananeira", de João Donato.

A diferenciação entre "Minha tribo sou eu" e a música analisada dos Tribalistas está na forma como a letra foi construída, porque a mensagem de uma é a mesma da outra: "vivemos o pós-modernismo".

LETRAS

Tribalistas
(Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte)

Tríade, trinômio, trindade, trímero, triângulo, trio / Trinca, três, terno, triplo, tríplice, tripé, tribo / Os tribalistas já não querem ter razão / Não querem ter certeza / Não querem ter juízo nem religião / Os tribalistas já não entram em questão / Não entram em doutrina, em fofoca ou discussão / Chegou o tribalismo no pilar da construção / Fé em Deus e Pé na Taba / Fé em Deus e Pé na Taba / Um dia já fui chimpanzé / Agora eu ando só com o pé / Dois homens e uma mulher / Arnaldo, Carlinhos e Zé / Os tribalistas saudosistas do futuro / Abusam do colírio e dos óculos escuros / São turistas assim como você e seu vizinho / Dentro da placenta do planeta azulzinho / Fé em Deus e Pé na Taba / Fé em Deus e Pé na Taba / Um dia já fui chimpanzé / Agora eu ando só com o pé / Dois homens e uma mulher / Arnaldo, Carlinhos e Zé / Dois homens e uma mulher / Arnaldo, Carlinhos e Zé / Um dia já fui chimpanzé / Agora eu ando só com o pé / Fé em Deus e Pé na Taba / Fé em Deus e Pé na Taba / O tribalismo é um anti-movimento / Que vai se desintegrar no próximo momento / O tribalismo pode ser e deve ser o que você quiser / Não tem que fazer nada basta ser o que se é / Chegou o tribalismo, mão no teto e chão no pé

Minha Tribo Sou Eu
(Zeca Baleiro)

eu não sou cristão / eu não sou ateu / não sou japa não sou ticano não sou europeu / eu não sou negão eu não sou judeu / não sou do samba nem sou do rock / minha tribo sou eu / eu não sou playboy eu não sou plebeu / não sou hip hight skin head nazi farizeu / a terra se move falou Galileu / não sou maluco nem sou careta / minha tribo sou eu / ai ai ai ai ai / ié ié ié ié ié / pobre de quem não é cacique / nem nunca vai ser pajé

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Com que fone eu vou?

E cá estou eu, na Universidade Federal de Alagoas, esperando uma aula começar (expressão vocal) e deu vontade de escrever pra o mundo inteiro ver na internet (leia-se uns poucos chegados).

Antes de começar este texto, estava aprendendo a utilizar o Excel, mas cansei e coloquei os fones de ouvido e Jorge Vercilo (Todos nós somos um - 2007) no meu MP3. E por falar em fone, recentemente li em "O Jornal" uma matéria sobre fones de ouvido. Isso tem um mês ou dois ou três... Mas me lembro que logo refleti sobre essa nova tendência que é o uso do MP3 e dos fones de ouvido, principalmente pelos mais jovens (e pelos coroas antenados).

O uso do MP3 é freqüente nos ônibus de Maceió. Às vezes coloco meus fones e fico com o meu MP3 Player em cima da bolsa, e percebo que algumas pessoas ficam olhando com cara de "o que é isso?!" Isto porque leva um tempo para que as pessoas compreendam o que se passa a sua volta nesses tempos tão corridos.

Mas voltando aos fones, na matéria que li aprendi que existem um fones que isolam uma boa parte do ruído do ambiente externo. E de fato eu sempre concorro com o som das pessoas conversando (de vez em quando umas adolescentes empolgadas voltando do colégio) e o barulho altíssimo do motor dos ônibus da capital. Quando li a matéria e percebi que havia possibilidade de comprar um fone que issolasse o ruído externo para que eu ouvisse melhor a música sem precisar topar o volume e estourar meus tímpanos, empolguei-me e parti para a pesquisa de preços e informações.

Comprei um, não sem ter pesquisado com colegas e visto vários modelos. Tirado do lacre, a decepção: o fone que comprei, da marca Clone, não isola tanto assim o ruído externo. Pra falar a verdade, isola tão pouco que quase não compensa devido ao preço.

Aí conversei hoje com Pedro, experiente em fones, com pós-graduação na EletroRádio Gomes, e falei que tinha comprado modelo diferente do que ele havia me mostrado. A marca Coby, indicada por ele, vem com duas possibilidades de "entrada" no ouvido, uma grossa e outra fina.

Pedro disse hoje antes da hora do almoço que o fino é melhor pra ambientes barulhentos, porém o grosso presta pra ficar deitado no travesseiro, pois não incomoda o ouvido.

O que comprei, da Clone, vem só no modelo grosso.

E assim iniciamos nossas experiências com estes pequenos dispositivos capazes de lotar os consutórios dos otorrinolaringologistas.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

PROTECIONISMO CULTURAL

Muito se fala que os pernambucanos valorizam a cultura, investindo em grandes eventos, apoiando os talentos locais e promovendo uma boa divulgação nacional. Reclama-se que o estado de Alagoas peca neste assunto, não valorizando suas raízes culturais e absorvendo de forma maciça o que vem de fora das terras caetés.

E isto parece ser verdade. Só para citar alguns exemplos: o Museu Théo Brandão exibe, num de seus corredores, uma coleção de cerâmica figurativa do México (!); o coral que “abriu” a aula-espetáculo de Ariano Suassuna, no Centro de Convenções, cantou a música “A feira de Caruaru” (!!); o Caderno B, da Gazeta de Alagoas, maior jornal em circulação do estado, traz uma grande quantidade de matérias com filmes internacionais e artistas de outros estados, como num dia desses, quando foi publicada uma matéria sobre Adriana Calcanhotto, artista que nem está entre as atrações do roteiro cultural de Alagoas.

Os interessados pelos rumos da cultura local precisam ter a noção de protecionismo cultural, que consiste em proteger a arte de Alagoas, para que ela tenha estímulos de criação e maior potencial de divulgação nacional e internacionalmente. Não se trata de desvalorizar o que é produzido em outras paragens, mas de proteger os artistas locais, a fim de dar mais condições de trabalho a estes que são responsáveis em grande medida pelo potencial turístico alagoano, dentre tantos outros benefícios aos alagoanos.

domingo, 13 de abril de 2008

CRÔNICA - O METRÔNOMO


- Vai, grava tu primeiro.

- Não, grava tu primeiro.

- Tá bom. Então deixa eu afinar o violão. (...) Liga aí o metrônomo. (TIC TAC TIC TAC TIC TAC...). Eita como é difícil... Mas deixa eu tentar mais uma vez. (TIC TAC TIC TAC TIC TAC...) (Toca, toca, toca...). Não! Cansei! Grava tu vai! Se eu não consigo gravar com metrônomo então o que eu vou fazer? Ficar fazendo release no SEBRAE o resto da vida é? (Chateada, muito chateada...)

- Deixa eu tentar. (Toca, toca, toca...). É, mas mesmo assim ainda não tô conseguindo. Que coisa não?! E se a gente tentar sem o metrônomo?

- Não dá. A gente tem que aprender a gravar com ele.

- E se eu gravar primeiro o cavaquinho?

- Então tenta.

- (Afina...). (Toca, toca, toca...). (Tenta, tenta, tenta...). Isso é difícil mesmo visse?

- Eu não tô legal não. Vamo tirar um cochilo e depois a gente tenta.

(Dorme, dorme, dorme...) (Acorda).

- (Afina o violão de novo). (Toca, toca, toca...). Agora sim! Agora eu tô melhorando. Acho que é tudo uma questão de prática. Passou! Vai essa mesmo! Acho que agora não dá pra gente ter algo melhor. Grava o cavaco agora.

- (Afina o cavaquinho de novo). (Toca, toca, toca...). É realmente a gente melhorou. Mas que trabalho hein?! Isso cansa! E as pessoas acham que música é só diversão... É fogo viu?

- Agora vamo mexer no programa pra gente ver o que pode fazer.

- Enquanto tu mexe aí... Me dá uma caneta e um papel... Acho que vou escrever um negócio ali...

(E depois de pegar ônibus em Maceió, enfrentar o sono e a dor de cabeça, trabalhar na gravação da música, chatear-se com a pouca experiência e a dificuldade de encarar o metrônomo, afinar os instrumentos repetidas vezes, tocar inúmeras vezes a mesma música, sentir o solo do cavaco doendo no juízo, mexer no programa do computador pra equalizar e incluir batidas e tal... Enfim... Depois de tudo isso mostrei o trabalho inacabado a um amigo leigo.)

- Vocês viraram a madrugada pra gravar isso?!?!

sábado, 8 de março de 2008

Fragilidade política em Jorge Aragão

Nossa música popular é bastante rica em suas manifestações rítmicas, melódicas, harmônicas e textuais. O Brasil foi e continua sendo celeiro para as mais diversas experiências musicais, nas suas mais variadas formas. Há um músico, sobre o qual se pretende tratar neste texto, que está incluso no rol de excelência da música popular brasileira: Jorge Aragão.

O sambista tem diversas composições gravadas por ele próprio e por nomes de “peso” da MPB, como Elza Soares, Ney Matogrosso e Beth Carvalho. Suas músicas possuem melodias agradáveis e letras bem construídas. Quando escreve e canta o amor, o sambista Jorge Aragão é profundo, metafórico e poético, a ponto de ser considera “o poeta do samba”.

Mas quando se trata de versar sobre temas políticos aí é que se consegue enxergar a pouca profundidade e o vazio das letras. É o caso de “Mutirão de Amor”: Cada um de nós deve saber se impor / e até lutar em prol do bem estar geral / afastar da mente todo mal pensar / saber se respeitar / se unir pra se encontrar / por isso vim propor / um mutirão de amor / pra que as barreiras se desfaçam na poeira e seja o fim / o fim do mal pela raiz / nascendo o bem que eu sempre quis / é o que convém pra gente ser feliz / cantar sempre que for possível / não ligar pros malvados / perdoar os pecados / saber que nem tudo é perdido / se manter respeitado / pra poder ser amado.

Vamos tentar esmiuçar esta música composta por Jorge Aragão e Zeca Pagodinho. A proposta da música é de se criar um mutirão de amor, o que já em si é algo muito vago, pois o amor é dessas coisas que a humanidade ainda não conseguiu definir. Então as propostas para o mutirão de amor são: cantar sempre que for possível / não ligar pros malvados / perdoar os pecados / saber que nem tudo é perdido / se manter respeitado / pra poder ser amado. Ora, percebe-se aí o tom conformista da música, pois essa história de não ligar pros malvados e de perdoar os pecados é a idéia de que devemos sempre ir levando a vida e aos pouquinhos as coisas vão se resolvendo, sempre esperando por algo ou alguém que virá para resolver nossas mazelas.

No mais a letra fica num vazio tão denso que só conversando com os próprios autores da música pra saber como se vai atingir o bem estar geral com propostas tão subjetivas.

Em “O Iraque é aqui”, Aragão escreve: O Iraque é aqui / tá pegando aqui dentro / o Iraque é aqui / o povo tá com medo / e há que se entender / crer / ê Carandiru (Bangu) / O Iraque é aqui / O gueto tá fervendo / pior que isso aqui / que a gente tá vivendo / é saber que o poder / pode poder / trocar de mão / fingir que até ficou de mal / sabe porquê? / aqui tudo é bom, aqui tudo é bom / toca bola e samba que eles baixam o som.

Mais uma vez podemos enxergar visões políticas na letra. Há a idéia, reinante no senso comum, de que o poder formal, os representantes políticos do legislativo, executivo e judiciário, são os culpados por nossas contradições sociais e os únicos responsáveis por modificarem nossa atual estrutura e acabar com as mazelas que nos afligem. Pior que isso aqui / que a gente tá vivendo / é saber que o poder / pode poder. Aí aparece a idéia de que nós não somos responsáveis por tudo de ruim que atinge nossa sociedade. Há o desconhecimento do conceito de construção social, e se abandona a perspectiva de que todos nós fazemos a história e de que os governantes são apenas representantes de uma sociedade, demonstrando, no caso brasileiro, a fragilidade, a mediocridade e a corruptibilidade de nossa nação.

Quando Jorge Aragão escreve sobre música, negritude e amor aí sim ele é feliz. Já escreveu críticas como tá chovendo de gente que fala de samba e não sabe o que diz e sucesso é tudo parte de um processo. Já disse quem cede a vez não quer vitória / somos herança da memória / temos a cor da noite / filhos de todo açoite / fato real de nossa história. Sobre o amor Aragão tem obras marcantes como preciso amar como quem quer compor e tudo que pude do amor eu tentei escrever / um sentimento imbatível, pra sempre intocável.

Jorge Aragão é como um poeta na hora de falar do amor, um leão na hora de defender o samba e a negritude, mas um gatinho medroso nas propostas políticas. Das duas uma: ou o poeta do samba começa a freqüentar seminários de formação política, ou então continua escrevendo sobre samba, negritude e amor.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Get Rock


No dia 27 de janeiro último entrou nos ares da internet uma matéria feita por Rívson Batista, um colega da UFAL, com o título "A roupa como instrumento de comunicação". Este que vos escreve participou da matéria na condição de entrevistado e fotografado. Segue um trecho da matéria, que se encontra completa no link http://gazetaweb.globo.com/Canais/Noticias/Noticias.php?n=145298.

MUSICALIDADE

Já dizia Nietzsche: “sem música, a vida seria um erro”. Muita gente concorda com o filósofo. Sem dúvida, a maior parte das “camisas que falam” utiliza-se de imagens, partes de canções ou pensamentos de artistas. Neste caso, não. Salomão Miranda, estudante de Jornalismo da UFAL, adquiriu uma camisa que estampa a seguinte mensagem: “Get Rock”. “Comprei a camisa porque traz a temática da música em sua frase. Está escrito Get Rock, ou seja, ponha rock na sua vida”, diz.

O estudante diz que não comprou a camisa por preferência a um único gênero musical, mas apenas por ela trazer a temática da música. “A música é uma das minhas paixões. A camisa combina comigo uma vez que tenho um gosto musical bastante diversificado, indo do rock ao samba”. Algo que precisa ser enfatizado também é a influência que o idioma inglês exerce nesta “moda que fala”. É o caso de milhares de camisas com expressões estrangeiras à venda no Brasil e também em Maceió. Estaríamos desvalorizando nosso idioma ?

“Pode sim desvalorizar o idioma se não soubermos como usar as influências que chegam de outros países. Somos bombardeados por informações advindas das mais diversas partes do globo, sobretudo, após a crescente popularidade da internet”, Salomão analisa. O universitário completa o pensamento dizendo que é inútil formar barreiras para a chegada de novas palavras em terras brasileiras, mas que o povo deve ter um equilíbrio na hora de utilizar expressões estrangeiras. Quanto a ter comprado a camisa pela vontade de se mostrar de determinado grupo, Salomão diz que esta não é uma preocupação: “Quando comprei a camisa, não foi para ser visto como alguém de algum grupo, mas reconheço que, à primeira vista, alguém pode me taxar de um "rockeirozinho" revoltado. Mas, no meu caso, não compro roupas para me encaixar em determinada tribo”.

Gazetaweb, Reportagem: Luiz Mazo, Colaboração: Rívison Batista


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Zezé, Luciano e Nelson Motta


Dia 23 de dezembro último assisti ao programa “Altas Horas”, apresentado por Serginho Groisman. A atração se vangloria por ser “vida inteligente na madrugada”. Infelizmente não consigo enxergar inteligência naquele programa. Vejo um desfile de artistas que vão para a tv falar da sua vida pessoal e uma platéia incapaz de formular perguntas diferentes e críticas.

Pois bem. O “Altas Horas” exibido na madrugada do dia 23/12/08 contou com a presença do jornalista e crítico musical Nelson Mota e da dupla Zezé di Camargo e Luciano.

Em nossa sociedade as contendas entre particulares rendem audiência. Por isto acredito que o encontro entre a dupla sertaneja e o crítico não foi mera coincidência, pois é sabido que Zezé e Luciano e Nelson Motta andaram tendo umas desavenças por aí.

Incitado pelo apresentador do “Altas Horas” a discorrer sobre a contenda com a dupla, Nelson Mota foi bem mais tímido, por estar cara a cara com os seus criticados, do que quando o vi em outros programas falando sobre o estilo sertanejo. E disse Mota que não gostava do sertanejo por que não entendia aquilo, já que o jornalista fora criado no Rio de Janeiro, onde desde pequeno ouvia jazz e outros ritmos mais refinados.

Ora, caro leitor, cara leitora... Nelsinho Mota, além de num dado momento ter exagerado no elogio a Zezé di Camargo como intérprete, “esqueceu” de dizer as verdadeiras razões para que criticasse o estilo sertanejo. Ele sabe e entende muito bem por que critica as músicas do Danieis e Cia. Sabe muito bem que as letras são compostas de rimas paupérrimas, as harmonias são bastante simplórias e a mensagem é sempre a da dor de cotovelo.

E o pior é que Zezé se empolgou com os elogios recebidos como intérprete e se arriscou a cantar música de Tim Maia sem saber a letra. Noutro momento cantou só uns dois versos de outra música gravada por Tim, mas o suficiente para perceber o esforço gutural que pode fazer com que um dos cantores mais ricos do país perca a voz em alguns anos. Ô coisa feia, viu?

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

A SIGLA

Segue a entrevista (na verdade só uma pergunta) que precisei fazer para um trabalho, no ano passado, da disciplina Teoria e Método da Pesquisa. Precisávamos fazer um "mini" Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). O tema que eu escolhi foi: A MPB como “braço” de resistência dos negros frente ao preconceito e à opressão.

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Pra você o que representa a MPB?

A MPB nasceu com a intenção de delimitar o que se produzia de música "boa" no Brasil. Ou seja, a elite intelectual cunhou o termo para diferenciar a bossa nova do brega; o forró da tropicália.

Acho que atualmente o termo MPB não dialoga mais com a realidade do cenário musical em nosso país. Ou tudo que é feito é MPB, o que inclui Calcinha Preta, Calypso e Tchê Garotos, ou o termo não tem mais sentido.

A sigla MPB tem se investido de uma nova roupagem, servindo para classificar expressões musicais que possuem dificuldades em se encaixar nos estilos mais conhecidos. Por exemplo, o grupo carioca Los Hermanos nasceu sendo classificado como uma banda de rock. Hoje a crítica musical encaixa o grupo sob a sigla MPB, só porque não consegue dar um nome ao som que eles produzem. Por isso que o termo MPB perdeu seu sentido inicial, pois tem servido apenas para definir aquilo que se tem dificuldade em se adequar a um único estilo ou ritmo.

Homero Dionísio, estudante do terceiro ano de comunicação social da Ufal.