sábado, 8 de março de 2008

Fragilidade política em Jorge Aragão

Nossa música popular é bastante rica em suas manifestações rítmicas, melódicas, harmônicas e textuais. O Brasil foi e continua sendo celeiro para as mais diversas experiências musicais, nas suas mais variadas formas. Há um músico, sobre o qual se pretende tratar neste texto, que está incluso no rol de excelência da música popular brasileira: Jorge Aragão.

O sambista tem diversas composições gravadas por ele próprio e por nomes de “peso” da MPB, como Elza Soares, Ney Matogrosso e Beth Carvalho. Suas músicas possuem melodias agradáveis e letras bem construídas. Quando escreve e canta o amor, o sambista Jorge Aragão é profundo, metafórico e poético, a ponto de ser considera “o poeta do samba”.

Mas quando se trata de versar sobre temas políticos aí é que se consegue enxergar a pouca profundidade e o vazio das letras. É o caso de “Mutirão de Amor”: Cada um de nós deve saber se impor / e até lutar em prol do bem estar geral / afastar da mente todo mal pensar / saber se respeitar / se unir pra se encontrar / por isso vim propor / um mutirão de amor / pra que as barreiras se desfaçam na poeira e seja o fim / o fim do mal pela raiz / nascendo o bem que eu sempre quis / é o que convém pra gente ser feliz / cantar sempre que for possível / não ligar pros malvados / perdoar os pecados / saber que nem tudo é perdido / se manter respeitado / pra poder ser amado.

Vamos tentar esmiuçar esta música composta por Jorge Aragão e Zeca Pagodinho. A proposta da música é de se criar um mutirão de amor, o que já em si é algo muito vago, pois o amor é dessas coisas que a humanidade ainda não conseguiu definir. Então as propostas para o mutirão de amor são: cantar sempre que for possível / não ligar pros malvados / perdoar os pecados / saber que nem tudo é perdido / se manter respeitado / pra poder ser amado. Ora, percebe-se aí o tom conformista da música, pois essa história de não ligar pros malvados e de perdoar os pecados é a idéia de que devemos sempre ir levando a vida e aos pouquinhos as coisas vão se resolvendo, sempre esperando por algo ou alguém que virá para resolver nossas mazelas.

No mais a letra fica num vazio tão denso que só conversando com os próprios autores da música pra saber como se vai atingir o bem estar geral com propostas tão subjetivas.

Em “O Iraque é aqui”, Aragão escreve: O Iraque é aqui / tá pegando aqui dentro / o Iraque é aqui / o povo tá com medo / e há que se entender / crer / ê Carandiru (Bangu) / O Iraque é aqui / O gueto tá fervendo / pior que isso aqui / que a gente tá vivendo / é saber que o poder / pode poder / trocar de mão / fingir que até ficou de mal / sabe porquê? / aqui tudo é bom, aqui tudo é bom / toca bola e samba que eles baixam o som.

Mais uma vez podemos enxergar visões políticas na letra. Há a idéia, reinante no senso comum, de que o poder formal, os representantes políticos do legislativo, executivo e judiciário, são os culpados por nossas contradições sociais e os únicos responsáveis por modificarem nossa atual estrutura e acabar com as mazelas que nos afligem. Pior que isso aqui / que a gente tá vivendo / é saber que o poder / pode poder. Aí aparece a idéia de que nós não somos responsáveis por tudo de ruim que atinge nossa sociedade. Há o desconhecimento do conceito de construção social, e se abandona a perspectiva de que todos nós fazemos a história e de que os governantes são apenas representantes de uma sociedade, demonstrando, no caso brasileiro, a fragilidade, a mediocridade e a corruptibilidade de nossa nação.

Quando Jorge Aragão escreve sobre música, negritude e amor aí sim ele é feliz. Já escreveu críticas como tá chovendo de gente que fala de samba e não sabe o que diz e sucesso é tudo parte de um processo. Já disse quem cede a vez não quer vitória / somos herança da memória / temos a cor da noite / filhos de todo açoite / fato real de nossa história. Sobre o amor Aragão tem obras marcantes como preciso amar como quem quer compor e tudo que pude do amor eu tentei escrever / um sentimento imbatível, pra sempre intocável.

Jorge Aragão é como um poeta na hora de falar do amor, um leão na hora de defender o samba e a negritude, mas um gatinho medroso nas propostas políticas. Das duas uma: ou o poeta do samba começa a freqüentar seminários de formação política, ou então continua escrevendo sobre samba, negritude e amor.