sexta-feira, 10 de abril de 2009

CAZUZA: UM CRIATIVO

A classificação indicativa do filme Cazuza – o tempo não pára afirma: “Inadequado para menores de 16 anos. Drogas, conflitos psicológicos atenuados e temática adulta atenuada.” Deve-se concordar com esta classificação indicativa, pois o filme o qual retrata uma parte da vida de Agenor de Miranda Araújo Neto (04/04/1958-07/07/1990) é capaz de mexer com qualquer pessoa. Pode-se assistir à película e sentir atração ou ojeriza – nos mais diversos graus – ao personagem-título do filme; mas ninguém é capaz de ficar indiferente ao conhecer as peripécias do, segundo o personagem Caetano Veloso, maior poeta de uma geração.

Cazuza – o tempo não pára é um drama o qual tem a direção de Sandra Werneck e Walter Carvalho e atuações de Marieta Severo, Reginaldo Faria, Emílio de Mello e Daniel de Oliveira.

No presente texto pretende-se fazer uma correlação entre alguns capítulos de um livro e cenas e diálogos do filme. O livro é Criatividade e grupos criativos, de Domenico De Masi, editado pela Sextante.

Domenico De Masi, com base nas idéias do psicanalista Hillman, tenta responder à seguinte questão: “Quais são as idéias, as fantasias, as metáforas, os símbolos e as noções que temos da criatividade e dos criativos?” Diz ele: “Uma (...) idéia liga a criatividade à forma, à excelência, ao sucesso, e caracteriza o criativo na pessoa ambiciosa que subordina o interior e o privado ao exterior e ao público, ficando vítima da sua própria imagem mítica, da qual não pode mais fugir.” Percebemos isto no filme Cazuza na cena em que o personagem principal assusta-se com a própria fama, afirmando que está acontecendo tudo o que ele queria (“manchetes”, “aplausos”), e diz à sua mãe, Lucinha: “Tô sempre querendo alguma coisa... Se não tiver mais nada para querer... O quê que vai ser depois disso tudo?”

Em Criatividade e Grupos Criativos, recorrendo-se a um estudioso, profere-se o seguinte: “Murray escreveu que o criativo ‘deve experimentar um certo gosto pelo caos temporário’: o caos interior, devido ao turbilhão de idéias, dúvidas, exaltações e desencorajamentos; o caos exterior, devido às condições econômicas, aos relacionamentos interpessoais, aos conflitos da solidariedade; o caos da sorte e da desgraça, devido à alternância com que a natureza privilegia ou caprichosamente abandona os criativos”.

Este caos, este vaivém de que se fala é a tônica da vida do personagem Cazuza. Exemplos não faltam: cena em que o grupo de rock Barão Vermelho se impressiona com a performance de Cazuza; os constantes conflitos pessoais e profissionais devido ao fato de Cazuza não querer se subordinar a ninguém, nem ao grupo Barão Vermelho, nem aos pais, nem ao namorado; cena na qual Cazuza ameaça tocar fogo em gasolina próxima de seu corpo caso sua mãe não lhe dê um abraço; o Barão Vermelho pára de tocar porque Cazuza não está cantando corretamente; num ensaio do Barão, Cazuza insiste em ensaiar uma música do sambista Cartola, provocando divergências e posteriormente uma violenta discussão.

Há também o momento em que o cantor e compositor considerado um poeta da canção demonstra insatisfações em fazer parte de um grupo de rock e, após quebrar uma premiação referente a cem mil cópias vendidas do disco do Barão Vermelho, fala bem emotivamente a um amigo e colega de trabalho: “Aí é que tá Zeca, eu não sei se eu tô dizendo o que penso, cara... eu só sei que não tô dizendo o que quero. Eu gosto de bagunça, cara, bagunça! Eu gosto é de bagunçar! Eu quero é misturar, Zeca, misturar! Fazer coisa diferente, p...! Eu só acho que pra fazer do meu jeito... eu tenho que fazer sozinho, Zeca.”

Ainda existem exemplos do caos supracitado: o personagem Cazuza fala sobre a AIDS: “Essa doença é uma m...! Não querem que a gente seja feliz...!” E, após descobrir que tinha AIDS, o autor de “Ideologia” pensa no suicídio. Há a cena na qual o pai de Cazuza, João, diz que os amigos de seu filho não prestam. Prontamente, Cazuza rebate: “Nessa vida ninguém presta! Os meus amigos não prestam, eu não presto!... Você não presta.”

Em Cazuza – o tempo não pára temos a oportunidade de conhecer as canções de um dos maiores criativos da música brasileira. Canções estas as quais, diga-se de passagem, são carregadas de atitude e poesia.

É importante frisar que a criatividade do personagem Cazuza não estava limitada aos aspectos profissionais, estendendo-se à vida pessoal. Isto dá brecha para que se analise o filme com base em diversas teorias psicológicas, além do que foi aqui analisado. Prova disso é a euforia de Cazuza ao versar sobre o ato de cantar: “Cantando a gente inventa, inventa um romance, uma saudade, uma mentira. Cantando a gente faz história. Foi gritando que eu aprendi a cantar. Sem nenhum pudor, sem pecado. Canto pra espantar os demônios, pra juntar os amigos, pra sentir o mundo, pra seduzir a vida.”