sexta-feira, 22 de março de 2013

Já chupou limão?

Como pode uma sutileza ser tão sutil quanto a de Djavan na canção Limão? No Brasil, a poesia entra fortemente muito mais via música popular que por livros de poemas propriamente ditos. (Aliás, um ótimo documentário para perceber esta situação é o Palavra Encantada). Pois bem, Limão é um grande poema feito pelo grande poeta Djavan, um dos alagoanos mais ilustres do mundo.

O véu luminoso do sol na bruma, cobre a serra molhada, por um buraco da névoa, vara a espada de luz, libertando a terra ao tocá-la. Imagino um quadro. Ou uma cena de filme. E logo em seguida vem a alegria e o encantamento de existir. Pareço uma criança descobrindo o mundo: a chuva parou, o dia renasce para o passeio, para o amor, para o trabalho. Pena que o capitalismo, nessas bandas de cá, não deixa a gente fruir o mundo como quem saboreia uma maçã e beija a boca do amado. Mas, sim, imagino a cena, e ela é muito gostosa. E as palavras são invenções; saboreio as invenções.

Versos de quem sente a vida por todos os poros: a princípio o cheiro é a primeira coisa a lembrar, o chão enxugando, aquecendo, as poças diminuindo, o povo, os animais, o vai-e-vem. É uma cidade, de preferência pequena - não consigo imaginar certas sutilezas nas nossas metrópoles. Penso em Garanhuns, Arcoverde, Delmiro Gouveia, Santana do Ipanema, Murici - esta última citada na também djavaneana Quase perdida.

Sabe aqueles pequenos prazeres que só você conhece? Cheiro de limão me encanta. Quantas coisas encantam nossa vida? Será que nas Fernandes Limas e nos desempregos e ônibus lotados conseguimos sentir como é gostoso viver? É um grande desafio. Mas, sim, vamos destruir as empresas de ônibus! As perguntas são mais encantadores que as respostas. Bem sabem disso a filosofia, a psicanálise e o jornalismo. Como se sente o fruto do limoeiro? Nossa! Essa pergunta é arrebatadora por demais! A virgindade verde se abre em gotas, para encenar o sabor, no teatro da boca, onde o áspero se fere, ao ranger dos dentes. É disso que eu falo. Essa capacidade de juntar palavras e sentidos de uma maneira tão bonita que fica até difícil de descrever a sensação. Mas sentir já é tudo.